Shuhei Yoshida presidiu os estúdios da PlayStation entre 2008 e 2019 e trabalhou na Sony desde a concepção do primeiro console, saindo da empresa em 2025. É uma das vozes mais respeitadas da marca.
Agora ele entrou no debate mais quente do momento: a decisão da Sony de encerrar a produção de discos para jogos novos a partir de 2028. E sua posição vai na contramão da revolta do público.
Em entrevista ao site GamerBraves, Yoshida disse não entender por que isso seria um problema tão grande.
O argumento de Yoshida
O raciocínio dele é prático. Como quase todo jogo em disco já exige download depois, o disco em si teria perdido boa parte da função.
Segundo o executivo, mesmo quem compra a versão física precisa baixar correções, DLCs e atualizações para ter o jogo completo. Sem isso, o disco entrega uma versão incompleta.
Ele também admitiu que não sabia dos planos da Sony quando deixou a empresa, e foi pego de surpresa pelo anúncio.
Sobre o próprio hábito, foi direto: prefere tudo digital, sem trocar disco nem gerenciar mídia. Quer abrir o menu, escolher o jogo e jogar.
Onde ele reconhece que há perda
Yoshida não descartou todas as críticas. Em dois pontos, foi mais cauteloso.
Sobre quem compra e vende jogos usados, admitiu que a falta de disco realmente prejudica esse grupo. Sem mídia, não há revenda.
Sobre colecionadores, disse que seria uma pena perder a possibilidade de colecionar jogos físicos.
E fez uma observação que passou batido em boa parte da cobertura: sem o disco, o preço digital pode ser qualquer um. É um reconhecimento importante — a mídia física funciona como âncora de preço e traz a concorrência entre varejistas.
A ironia: em 2013, ele fez exatamente o oposto
Aqui está o detalhe que dá outra camada à história.
Na E3 de 2013, quando a Microsoft anunciou restrições ao empréstimo de jogos no Xbox One, a Sony respondeu com um vídeo de poucos segundos que virou lenda.
Nele, o próprio Yoshida entrega uma caixa de Killzone: Shadow Fall a um colega e diz, em inglês, que é assim que se compartilham jogos no PS4. Nada mais. O vídeo passou de 30 milhões de visualizações e ajudou a definir a geração.
Treze anos depois, esse mesmo vídeo voltou a circular — agora como protesto contra a Sony, no debate sobre o fim da mídia física.
O argumento das promoções não vale igual no Brasil
Questionado sobre quem tem orçamento apertado, Yoshida respondeu que essas pessoas podem esperar as promoções das lojas digitais.
O raciocínio funciona melhor em alguns mercados que em outros. No Brasil, boa parte do acesso barato a jogos passa justamente pelo que só existe com disco:
* Revenda de usados, que sustenta lojas de bairro e permite trocar um jogo pelo próximo
* Empréstimo entre amigos, que na prática amplia o acesso sem custo
* Compra de segunda mão, muitas vezes a única forma de jogar um lançamento sem esperar dois anos
Sem mídia física, esses três caminhos deixam de existir. Sobra a promoção — que depende de quando a loja quiser fazer, e não de quando você precisa.
Vale lembrar um dado recente: em Resident Evil Requiem, a mídia física respondeu por cerca de metade das vendas fora dos Estados Unidos, chegando a 55% na França. O disco está longe de ser irrelevante no mundo todo.




